quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Governo colombiano descobre inimigo maior que as FARC: a miséria

Manifestação na praça de Bolívar dos Desplazados, pessoas desabrigadas por conflitos e sem amparo do governo
Estive na Colômbia na última semana, conhecendo Cartagena e Bogotá, dois lugares muitos distintos de um mesmo país, principalmente pelo clima: Cartagena muito quente e úmido, Bogotá fria, mas também úmida.

As diferenças se acentuam para quem tem certa dificuldade com o idioma espanhol, em Cartagena, habitada em grande parte por negros, a língua falada nas ruas é muito rápida e com um sotaque que dificulta um pouco para quem não é de origem espanhola.
Cartagena e os negros do caribe colombiano tem um histórico de luta e libertação contra a dominação espanhola, festejada no dia 11 de novembro, orgulho popular comemorado com grande festa.

Assim como em Cartagena, Bogotá passa por grandes obras viárias.  As duas cidades recebem significativos investimentos em transportes  para a ampliação dos corredores de ônibus da capital, chamado de Transmilenium e para a construção do de Cartagena.

Canteiros de oportunidades e desigualdades
Estas obras significam oportunidade de trabalho para uma população que ainda carece de maiores investimentos do Estado.
Segundo dados oficiais, cerca de 50% da população colombiana vive na pobreza ou pobreza extrema.
Aproximadamente 5,5 milhões sobrevivem com menos de dois dólares diários e o desemprego alcança 9,5%.
Cenário com o qual pude melhor deparar-me em Bogotá, de longe mostra-se diferente daquilo que costumamos ver na mídia brasileira.  Pouco se fala no Brasil da pobreza ou desemprego na Colômbia, muito explora-se a ligação com os Estados Unidos e o modelo de contraponto ao socialismo venezuelano de Chávez.  Pude, in loco e nitidamente, constatar que o que vemos sobre a Colômbia na mídia brasileira é uma mal acabada propaganda política.

Bogotá é uma cidade rica, moderna e com grandes e belos prédios, mas também povoada por pessoas sem casa e sem emprego, síndrome de um modelo de governo que destina seu maior orçamento para a Defesa, com a presença militar americana forte.

Pobreza escondida nos arredores de Bogotá
Discurso de combate a guerrilha e o novo discurso de combate a pobreza
Alvaro Uribe manteve-se a frente do governo com o capital político de estar vencendo as FARC, com esta bandeira reelegeu-se, quase aprovou um terceiro mandato para si próprio e elegeu seu sucessor.
Não é por menos que isto tenha sido assim: as FARC é um assunto proibido nas ruas, mas muito propagado pela televisão local, com destaque da Rede Caracol, o atual ministro da defesa, Juan Carlos Pinzón, ganhou ares de salvador da pátria com a morte em combate de Alfonso Cano, líder guerrilheiro.
Foi possível vê-lo diversas vezes na TV falando sobre as vitórias do Estado sobre a guerrilha.
Em outra frente, Pinzón, lançou uma campanha para erradicar o abandono de crianças, que, segundo o governo, ajuda a abastecer as fileiras da guerrilha colombiana.  Um levantamento do Ministério da Defesa estima que cerca de 13% do efetivo das FARC é composto por menores de idade, geralmente, abandonados a própria sorte.  Frutos da desigualdade e da pobreza extrema que destrói lares, algo não muito especificado pelo ministro da pasta de maior orçamento e de maior projeção política.

O governo de Juan Manuel Santos parece saber que apenas a guerra interna contra uma guerrilha enfraquecida e sem rumos políticos claros, não serão suficientes para manter no poder o grupo político que governa o país.
A vitória em um inesperado segundo turno contra o ex-prefeito de Bogotá, Antanas Mockus, ligou o sinal de alerta para uma realidade de pobreza que, cada vez mais, ganha espaço entre os colombianos no dia a dia.
À época Uribe acreditava que Santos venceria, com facilidade, o pleito no primeiro turno.  É preciso destacar o apoio da mídia local a guerra que o governo e os Estados Unidos travam contra as FARC, mesmo assim o povo levou a disputa para o segundo turno.

A miséria mostra-se como um inimigo mais destruidor que a guerrilha, pois mata mais a cada ano que as FARC, essa situação não pode ser mais escondida.  Santos, pensando em agradar um contingente social que exige ação rápida do governo contra esta situação e, de algum modo, apresentando-se com mais sensibilidade que seu antecessor, criou um super ministério, o Departamento Administrativo para la Prosperidad Social, com uma estrutura de 11 mil funcionários e o segundo maior orçamento do governo, já taxado como o legado social de Santos.

Santos precisa derrotar a miséria, de olho nas FARC, para prevalecer e calar os oposicionistas, mas acima de tudo, cambiar uma realidade de pobreza e concentração de renda que assola a sociedade colombiana.
Pode parecer pouco, mas para um governo formado por uma coalizão dominada pela direita, é um passo incisivo onde os conservadores não costumam lograr êxito.
Talvez explique os recentes ataques de Uribe a política de governo de Santos e seus diálogos com os governos de esquerda do continente sul americano.

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